Não bastasse a já insuportável carga de mediocridades a que somos submetidos num único programa de televisão, em página inteira de certos jornais, em várias de revistas, em longos minutos no rádio, ainda está na moda há alguns anos as famosas entrevistas com o colonizado nome de talk-shows para se assemelhar aos nortes americanos, comprovadamente superficiais e “engraçadinhos” na sua forçada descontração. Como o nome diz são shows onde a palavra é usada apenas para não dizer coisa-com-coisa mas distrair os telespectadores. Quando são apresentados por entrevistadores famosos servem para garantir o ibope centrado na figura que costumamos ver desfilando seu charme e conta bancária nas páginas de revistas semanais especializadas em acompanhar os passos das pouco mais de cem pessoas que habitam esse universo – sempre as mesmas, sempre as mesmas.
Mas quando são entrevistas provincianas, feitas por entrevistadores ainda mais provincianos espalhados por esse Brasil afora, aí a coisa fica trágica. Porque se evidencia aquilo que todos sabem e ninguém ousa falar alto: não existe apenas indigência financeira mas muitos outros tipos de indigências tais como a indigência cultural, a indigência intelectual, a jornalística, a social, a indigência da falsa alegria do que chamam alta sociedade, etc...
Passando os olhos pelos programas de televisão locais permanece a sensação que senti há uns dois anos quando fui forçado a ficar uma semana inteira assistindo o que se produzia na TV em Goiás. Tudo permanece como dantes no reino de Abrantes. Muda-se a embalagem permanece o pobre conteúdo.
Se for verdade o que preconizam os papas da comunicação, que a boa entrevista depende da cultura do entrevistador e do que tem a dizer o entrevistado, estamos mal. Os primeiros não têm cultura e os segundos nada a dizer. Assisti nessa semana inteira a todos os programas de entrevistas goianos e me senti constrangido com o nível das perguntas e a indigência das respostas, nem mais nem menos. Primeiro vem a escancarada rasgação de seda de uma parte e outra, depois pergunta-se o óbvio, aquela pergunta que já pressupõe a resposta “está gostando da festa?” quando o entrevistado foi convidado para a festa do entrevistador. O que ele deveria dizer? “não, a festa está tediosa, cheia de mulheres feias vestidas inadequadamente e homens balofos e burros” – não entraria na edição. Responde-se o que o perguntador quer que se diga “fulano é perfeito para organizar festas, estou me divertindo muito “ que a câmera trata de desmentir através das expressões entediadas e dos corpos rígidos sentados em cadeiras de luxo, envolvidos por flores.
Noutro programa gravado com óbvias intenções de promover um certo restaurante, o entrevistador ataca: “ e aí, está gostando da comida?” ao que o entrevistado previamente instruído responde que sim que a comida é a melhor do Estado de Goiás e tal... enquanto a câmera passeia pelo bufet sem dar a menor importância ao que o pomposo entrevistado tem a dizer que, de resto, é menos importante que a comida mesmo, já que a criaturinha não tem nada a dizer. Numa outra torturante seqüência de entrevistas o filho-herdeiro de um outro velho entrevistador não conseguia elaborar a mais mínima pergunta inteligente e ainda se deparou com um pavoneado prefeito do interior que participava da homenagem festiva visivelmente bêbado a ponto de se enrolar nas poucas palavras óbvias que pronunciou. Uma panelinha especializada em rasgar e rasgar cada vez mais seda aos outros paneleiros presentes à festa – uma indigência jornalística, como bem caracterizou McLuhan ainda nos anos 70. Mas seria esperar demais que o entrevistador herdeiro lesse Mc Luhan.
E tome sofrimento intelectual para quem tem uma pequena réstia de neurônios funcionando!
Como esses indigentes programas jamais recebem críticas que os permitam crescer, já que ninguém ousa tocar na ferida, me pergunto até quando seremos obrigados a conviver com essas bobagens disfarçadas de colunismo eletrônico, revista televisiva, cultura dinâmica?! Se a direção do próprio canal do governo não interfere para fazer jus à palavra cultura que carrega no nome, temo que a vaca vai se afundar cada vez mais no brejo da idiotice que, se por um lado é causa de irritação para uns, por outro lado é fonte de renda e pseudofama para uns poucos que nadam de braçadas nesse charco.
Naturalmente pode-se usar o botão do controle remoto, mas isso não vai servir para elevar o nível provinciano de tais disparates vendidos caro a patrocinadores amigos que acreditam estar investindo em mídia.
Só a crítica construtiva é capaz de modificar e melhorar essas cópias mal feitas de programas do eixo RioXSão Paulo que, por sua vez já não são lá um primor de inteligência e comunicação.
Pior ainda é tentar se nivelar a eles, e por baixo.